domingo, 17 de janeiro de 2010

O alimento mais saudável do mundo

The New York Times

Nicholas D. Kristof
Em Tegucigalpa (Honduras)
Qual é o alimento mais delicioso, nutritivo, requintado e gratificante do mundo?

Não se trata da ambrósia nem pizza de pepperoni. Dica: é muito mais barato. Um ano de suprimento custa menos do que o hambúrguer mais barato.

Não sabe? Aqui vai outra dica: ele pode salvar a vida de crianças e mulheres que podem engravidar. Se você conhece uma mulher que pode ficar grávida, garanta que ela obtenha essa substância milagrosa.

A última dica: foi a falta dessa substância que levou à tragédia com a qual me deparei recentemente em um hospital aqui na capital hondurenha. Três bebes estavam deitado em berços pertos uns dos outros, todos com defeitos de nascença no cérebro e na medula espinhal.

No primeiro berço estava Rosa Álvarez, de 18 dias, que se recuperava de uma cirurgia para reparar um buraco na coluna. Ela também sofre de uma deformidade cerebral.

No berço seguinte estava Ángel Flores, com um tecido protuberante nas costas.

O mais perto da porta era José Tercera. Sua mãe tirou uma faixa que envolvia sua cabeça e eu pude ver um pedaço de seu cérebro, do tamanho de uma bola de golfe, saindo de um buraco em sua testa.

Os médicos acreditavam que a razão para essas deformidades era que suas mães não receberam micronutrientes em quantidade suficiente, particularmente ácido fólico, durante a gravidez. Esses micronutrientes são a substância milagrosa a que me refiro. Praticamente não há outra forma de ajuda do exterior com melhor custo-benefício para obtê-la do que inseri-las no fornecimento de alimentos.

"Esses problemas são desnecessários", disse Dr. Ali Flores, pediatra e especialista nesses defeitos, enquanto observava os três bebês.

Se uma mulher grávida não recebe ácido fólico (também conhecido como vitamina B9) em quantidade suficiente em seu corpo bem no início da gravidez, seu feto pode sofrer esses defeitos. É por isso que os médicos dão ácido fólico a mulheres que planejam engravidar.

Igualmente importante é outro micronutriente, o iodo. A pior consequência da deficiência de iodo não é o bócio, mas a má-formação do cérebro do feto, que elimina permanentemente de 10 a 15 pontos de seu QI.

Há também o zinco, que reduz as mortes de crianças por diarreia e infecções. Há o ferro, cuja falta causa anemia. E a vitamina A: cerca de 670 mil crianças morrem todos os anos porque não recebem vitamina A o suficiente, e a carência dessa vitamina permanece sendo a principal causa de cegueira infantil no mundo.

"Nos primeiros estágios da vida a sorte é lançada", disse David Dodson, fundador do Project Healthy Children, um grupo de ajuda que combate as deficiências de micronutrientes em Honduras e outros países pobres. "Se uma criança não está recebendo os micronutrientes certos, o efeito é permanente".

Há nove anos, Dodson era simplesmente um empresário americano que administrava uma empresa de lixo com 300 funcionários, fundada por ele. Então, ele visitou Honduras e, em um hospital, encontrou uma mãe cujo bebê recém-nascido tinha um buraco no crânio. Ele ficou sabendo que uma quantidade pequena de ácido fólico poderia prevenir esses dolorosos defeitos - e sua vida mudou.

"Nunca tinha visto nada na vida que pudesse ter tanto impacto por tão pouco investimento e que pudesse ser sustentável", disse Dodson. Ele e sua mulher, Stephanie, venderam a empresa e usaram parte do dinheiro para dar início ao Project Healthy Children.

A forma com melhor custo-benefício de distribuir micronutrientes não é entregá-los. Mary Flores, ex-primeira-dama de Honduras que é ativa na área da nutrição, observa que mulheres pobres podem ser difíceis de encontrar, e mesmo se receberem pílulas de ácido fólico elas às vezes podem não as tomar com medo de que elas sejam, na verdade, pílulas anticoncepcionais. Assim, os micronutrientes são adicionados a alimentos comuns, como sal, açúcar, farinha ou óleo de cozinha.

Acrescentar iodo, ferro, vitamina A, zinco e várias vitaminas do complexo B, incluindo o ácido fólico, a uma gama de alimentos custa cerca de 30 centavos de dólar por pessoa por ano. Grupos que focam nos micronutrientes também incluem a Helen Keller International e Vitamin Angels. Nos Estados Unidos, a agência Food and Drug Administration exige que a farinha seja fortificada com ácido fólico desde 1998. Até mesmo nesse país, com alimentação, assistência médica e fortificação melhores, não são todas as mulheres que recebem micronutrientes em quantidade suficiente, mas o problema é muito pior em países pobres.

Dodson observa que é muito mais barato prevenir defeitos de nascença do que tratá-los. "Não é um problema de saúde global muito atraente, mas é fundamental para manter uma população saudável", disse Dodson. "Colocar pequenas quantidades de ferro, iodo e ácido fólico nos alimentos não tem atraído a atenção tanta atenção quanto tratar de uma pessoa doente ou em um campo de refugiados. Até pouco tempo atrás, essa questão estava fora do radar de todo mundo". À medida que os Estados Unidos reorganizam seu caótico programa de assistência, deveriam tentar promover o que pode ser o alimento mais delicioso do mundo: os micronutrientes.

Tradução: Gabriela d'Avila

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Vitaminas, Sais Minerais e Aminoácidos

As vitaminas são compostos orgânicos da mais alta importância, necessárias ao crescimento, à reparação dos tecidos, ao funcionamento e a proteção do organismo. São fundamentais para a manutenção da vida. O organismo humano não produz vitaminas, com exceção da Vitamina D e da niacina, por isso depende de fontes externas, como alimentos e suplementos vitamínico-minerais para obtê-las.
Essas substâncias não produzem calorias.
Componente
Função
Ácido Fólico
Essencial para formação dos glóbulos brancos e vermelhos;
Participa na síntese das bases púricas e pirimídicas;
Atua nos processos de interconversão de aminoácidos;
Importante para a formação do túbulo neural.
Biotina
Carreador do grupo carboxila na piruvato carboxilase, que está envolvida no reabastecimento do suprimento mitocondrial de oxalacetato;
Carreador do grupo carboxila na acetil-CoA carboxilase, que catalisa o primeiro passo na síntese de ácidos graxos;
Envolvida na oxidação dos ácidos graxos de cadeias longas ímpares.
Vitamina A
É um micronutriente que desempenha papel essencial na visão; na diferenciação, crescimento e manutenção dos tecidos epitelial e ósseo;
Participa na manutenção do sistema imunológico.
Vitamina B1
A tiamina tem papéis essenciais na transformação de energia e na transmissão de impulsos nervosos;
É necessária no metabolismo de gorduras, proteínas, ácidos nucléicos e carboidratos.
Vitamina B12
É essencial para o funcionamento normal do metabolismo de todas as células, especialmente para aquelas do trato gastrointestinal, medula óssea e tecido nervoso
Favorece a regeneração dos tecidos;
Estimula a medula na formação, crescimento e maturação dos glóbulos vermelhos;
É essencial para a síntese de DNA e de mielina dos nervos periféricos e póstero-laterais da medula espinhal.
Vitamina B2
É constituinte ativa de diversas enzimas, entre as quais as que atuam no transporte de oxigênio e, desse modo, na respiração celular e nos processos de oxidação;
Graças à sua fotossensibilidade, desempenha importante papel nos fenômenos da visão;
Exerce efeito protetor junto à retina;
É essencial para o metabolismo de carboidratos aminoácidos e lipídeos
Ajuda na conversão de proteínas em energia.
Vitamina B 3
Fundamental para o crescimento e suprimento de energia.
Vitamina B 5
É essencial para o metabolismo celular, pois é parte da CoenzimaA (CoA) e da proteína acil-carreadora (ACP)
Envolvido na síntese de triglicerídeos;
Participa do metabolismo de hormônios sexuais;
Vitamina B6
Evolvida em praticamente todas as reações metabólicas de aminoácidos;
Importante no processo de glicogenólise;
Necessária para a biossíntese de esfingolipídeos nas bainhas de mielina das células nervosas;
Necessária para o metabolismo dos neurotransmissores;
Atua no metabolismo endócrino e nas respostas imunológicas;
Vitamina C
Grande poder antioxidante;
Aumenta absorção de ferro por estar envolvida na transferência de ferro da transferrina plasmática para a ferritina hepática;
Participa da síntese do colágeno;
Auxilia na cicatrização e recuperação dos tecidos após queimaduras e ferimentos;
É importante na resposta imune e em reações alérgicas.
Vitamina D 3
Atua na manutenção da homeostase de cálcio e fósforo;
Regula a absorção e fixação de cálcio nos ossos;
Previne e combate o raquitismo.
Vitamina E
Importante ação antioxidante;
Diminuição do estresse oxidativo celular;
Vitamina K
Atua no sistema enzimático carboxilase-dependente presente na membrana microssomal hepática, responsável pela síntese dos fatores de coagulação.
Betacaroteno
É uma pró-vitamina A;
É um micronutriente que desempenha papel essencial na visão; na diferenciação, crescimento e manutenção dos tecidos epitelial e ósseo;
Auxilia na formação da melanina;
Participa na manutenção do sistema imunológico

Minerais são substâncias inorgânicas necessárias ao corpo humano. Estão presentes nos tecidos corporais em pequenas quantidades. Aproximadamente quatro por cento do peso do nosso corpo são representados pelos minerais.
Atuam no de várias formas no organismo dependendo de sua função principal.
Os minerais não são sintetizados pelo organismo humano e são encontrados nos alimentos e nos suplementos vitamínico-minerais.

Componente
Função
Boro
Mineral essencial para a energia física e o desenvolvimento dos ossos ;
Atenua a deficiência de vitamina D no corpo humano;
Influencia indiretamente o metabolismo do cálcio, fósforo, magnésio e colecalciferol.
Cálcio
Fundamental para constituição dos ossos e dentes;
Envolvido na transmissão de impulsos nervosos, contração muscular e secreção hormonal. Co-fator enzimático;
Envolvido na coagulação sanguínea;
Cobre
É essencial para diversas funções orgânicas, como a mobilização do ferro para a síntese da hemoglobina, a síntese da adrenalina e a formação dos tecidos conjuntivos;
Auxilia na regulação do metabolismo das gorduras;
Atua em diversas enzimas, entre elas a Superóxido dismutase, tirosinase e citocromo C-oxidase.
Cromo
Principal nutriente de controle da glicemia;
Sua principal atuação é de potencializar o papel da insulina, não unicamente no metabolismo dos açúcares, mas também no das proteínas e das gorduras.
Ferro
Componente essencial da hemoglobina, mioglobina e desidrogenases dos músculos esqueléticos, pois atua diretamente no transporte de oxigênio e de gás carbônico;
Co-fator de metaloenzimas teciduais de funções respiratórias, oxidativas e de fosforilação; Componente ativo dos citocromos envolvidos no processo de respiração celular; Importante para algumas funções imunológicas e no desempenho cognitivo e na síntese e função de neurotransmissores.
Iodo
É parte integrante dos hormônios tireoidianos, triiodotironina (T3 ) e tireoxina (T4), que são responsáveis pelo crescimento, reprodução e metabolismo das células;
Está envolvido em reações químicas que produzem energia.
Magnésio
Co-fator enzimático nos processos metabólicos dos carboidratos, gorduras e síntese protéica;
Mediador das contrações musculares e de neurotransmissões;
Auxilia na fixação de cálcio na massa óssea.
Manganês
Importante co-fator enzimático;
Essencial para o metabolismo do colesterol;
Importante para síntese e ativação de protombina;
Importante mineral atuante na manutenção e integridade do tecido ósseo, prevenindo o surgimento da osteoporose;
Participa também de mucopolissacarídeos intervindo indiretamente na condrogênese e osteogênese.
Molibdênio
Co-enzima da xantina oxidase, aldeído oxidase e sulfito oxidase;
Exerce função de catalisador na conversão do ferro férrico em ferro ferroso.
Selênio
Possui efeito antioxidante, que atua d maneira sinérgica com a Vitamina E;
Esse mineral auxilia na prevenção da ocorrência da doença de Keshan (cardiomiopatia juvenil), alterações pancreáticas e promove o crescimento corpóreo.
Silício
Ata no crescimento, na calcificação dos ossos e na formação da cartilagem e do tecido conjuntivo;
Induz a biossíntese do colágeno;
Há indícios de proteção contra o processo arterioescleórtico;
Participa do metabolismo do colesterol e ácidos biliares.
Zinco
Co-fator enzimático;
Necessário para a atividade das RNA polimerases;
Envolvido na mobilização hepática da vitamina A;
Atua no crescimento e replicação celular e na maturação sexual;
Também está envolvido nos processos do sistema imune.

Componente
Função
Colina (como Bitartarato de Colina)
Possui papel funcional como fosfatidilcolina, acetilcolina e fosfolipídeo de membrana;
Precursor para os esfingolipídeos e promotor para o transporte de lipídeos;
Como acetilcolina, atua como neurotransmissor e como componente o Fator Ativador de Plaquetas;
Inositol (como Mesoinositol)
Atua na mediação de respostas celulares a estímulos externos, transmissões nervosas e regulação da atividade enzimática;
Necessário para o transporte de aminoácidos;
O inositol associado à colina atua como agente lipotrópico e hepatoprotetor.
Quitosana
Se liga a gorduras, impedindo a absorção dessas pelo trato intestinal;
Auxilia na redução da colesterolemia;
Auxilia em dietas com restrição de gorduras.
Óleo de Linhaça
Fonte de Omega-3 e Omega-6;
Auxilia na redução da colesterolemia;
Atuam como precursores na síntese de prostaglandinas.
Taurina
Ajuda na absorção e eliminação de gorduras;
Atua como neuro-transmissor em algumas áreas do cérebro e retina;
Ajuda para uma melhor absorção da creatina pelo organismo;
Ajuda a estabilizar e a manter a saúde do cérebro e do sistema nervoso;
É também importante no metabolismo das gorduras;
Melhora o sono, ansiedade, depressões leves, estresse, e ajuda baixar o colesterol e triglicerídios.
Creatina
Aumenta significativamente a força muscular, o volume e o peso dos músculos.
Lecitina

Auxilia na manutenção do funcionamento das células nervosas, beneficiando a memória;
Atua no transporte e utilização de ácidos graxos e colesterol.
Alguns estudos vêm demonstrando que a lecitina auxilia no controle de doenças cardiovasculares. redução dos níveis de colesterol, gorduras e triglicerídios;
Ajuda a prevenir a formação de pedras biliares e doenças cardiovasculares;
Tônico do sistema nervoso central;
Recomendado como auxiliar no tratamento da obesidade, gorduras localizadas e pele.

Cafeína
• Poderoso estimulante do sistema nervoso central;
Diminui a fadiga
Espirulina
Supressor do apetite;
Quando ingerida com o estômago vazio reveste suas paredes produzindo uma sensação de saciedade;
Rica em vitaminas e minerais. Excelente para pessoas que necessitam de regimes rigorosos.
L-Carnitina
Ajuda a regular o metabolismo da gordura no coração e nos músculos do esqueleto, servindo de transportador para levar ácidos graxos até a mitocôndria.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Os Aminoácidos

Wikilivros

Estrutura geral de um aminoácido na sua forma zwitteriónica.

Os aminoácidos são moléculas que contêm simultaneamente grupos funcionais amina e ácido carboxílico.

Em Bioquímica, este termo é usado como termo curto e geral para referir os aminoácidos alfa, ou seja, aqueles em que as funções amino e carboxilato estão ligadas a um carbono alifático, denominado carbono-alfa (carbono-α).

Pelo menos um átomo de hidrogénio está ligado a este carbono. A esfera de coordenação do carbono-α é completada com a presença de uma cadeia lateral, diferente para diferentes aminoácidos.

Os aminoácidos α (cerca de vinte) são constituintes de todas as proteínas e péptidos.

Em soluções aquosas de pH neutro, os aminoácidos podem existir em duas formas. Uma pequena fracção encontrar-se-á numa forma electricamente neutra, ou seja, com o grupo amina desprotonado (-NH2) e o grupo carboxilo protonado (-COOH).

A maioria estará, no entanto, numa forma ionizada, em que o grupo amina se encontra protonado (-NH3+) e o ácido carboxílico desprotonado a carboxilato (-COO-), denominando-se esta forma de zwitteriónica (do alemão zwitter, que significa "híbrido").

Um zwitterião é uma molécula globalmente neutra em termos de carga eléctrica mas possuindo cargas locais devido à presença de grupos ionizados.

Os aminoácidos podem ligar-se entre si com uma ligação amida, que em Bioquímica é especificamente designada, neste caso, de ligação peptídica.

A ligação ocorre entre o átomo de carbono do grupo carboxilato e o azoto do grupo amina; no processo, é libertada uma molécula de água, seno a ligação final entre o carbono de um grupo carbonilo e o azoto de uma amina secundária.

Como conseqüência, uma cadeia peptídica, ou seja, formada por diversos aminoácidos ligados desta forma, terá um grupo amina numa extremidade (denominada N-terminal) e um grupo carboxilato na extremidade oposta (denominada C-terminal).

A ligação peptídica tem uma geometria planar porque existe ressonância entre o grupo carbonilo e o azoto da amina, fazendo com que a ligação C-N tenha um carácter parcial de ligação dupla (é possível desenhar uma estrutura de ressonância entre o átomo de carbono e o de azoto, tendo uma carga negativa formal sobre o oxigénio e uma positiva sobre o azoto).

Esta característica impede que haja rotação em torno da ligação C-N, que se mantém numa conformação trans.

Seis átomos encontram-se então no mesmo plano geométrico: o carbono-α de um aminoácido, os átomos do grupo carbonilo da ligação peptídica, os átomos da amina secundária dessa mesma ligação e o carbono-α do segundo aminoácido.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Lula deve defender biocombustíveis em reunião do G8

ROGERIO WASSERMANN
da BBC Brasil, em Hokkaido (Japão)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca nesta terça-feira no Japão, onde participará como um dos convidados da reunião de cúpula do G8, com o objetivo de convencer os demais participantes do encontro de que os biocombustíveis --particularmente os produzidos pelo Brasil-- não são os responsáveis pelo aumento global nos preços dos alimentos e que eles podem ser uma alternativa viável para reduzir a dependência mundial do petróleo e ao mesmo tempo ajudar a combater o aquecimento global.

"[Durante a cúpula] o presidente Lula deve defender a viabilidade dos biocombustíveis para combater as mudanças climáticas e não prejudicar a produção de alimentos, contra a atual onda contrária aos biocombustíveis em meio aos crescentes preços dos alimentos", comenta Roberto Hanania, chefe da equipe que estuda o Brasil no G8 Research Group, comunidade acadêmica destinada a estudar as ações do grupo dos oito.

Há mais de dois anos que Lula aproveita toda a oportunidade que tem em encontros internacionais para propagandear os biocombustíveis, dos quais o Brasil é um dos principais produtores mundiais.

Porém no último ano o cenário internacional mudou bastante, com questionamentos cada vez mais freqüentes sobre a viablidade dos biocombustíveis.

Pressão

Na última semana, um documento do Banco Mundial publicado pelo jornal britânico "The Guardian" estimou em 75% a responsabilidade dos biocombustíveis no aumento dos preços globais dos alimentos.

O argumento é de que a crescente demanda por grãos, milho e cana-de-açúcar, principais matérias-primas para a produção de biocombustiveis, estaria pressionando os preços para cima.

Além disso, muitas organizações internacionais vêm questionando também o argumento ambiental dos biocombustíveis, afirmando que sua cadeia de produção acaba sendo tão ou até mais poluidora do que a queima de combustíveis fósseis, e que o aumento da produção de soja ou de cana para a transformação em biocombustíveis estaria provocando desmatamentos na Amazônia.

O governo brasileiro argumenta que o Brasil tem quantidade suficiente de terras aráveis fora da Amazônia e que o aumento da produção de matérias primas para os biocombustíveis não ameaça a área de floresta.

Além disso, o argumento do Brasil é de que sua produção de biocombustíveis, particularmente a do álcool, feito à base de cana-de-açúcar, é mais eficiente em comparação, por exemplo, à do álcool de milho feito nos Estados Unidos, e que não teria um impacto sobre os preços dos alimentos.

Roberto Hanania, do G8 Research Group observa que "o presidente Lula afirmou que os biocombustíveis podem aumentar a segurança energética de países que não têm fontes mais convencionais de energia e também aumentar o crescimento do setor agrícola, com seus benefícios de desenvolvimento associados a isso".

Esse argumento é em parte chancelado pelo Japão, anfitrião desta cúpula. "Com a ameaça das mudanças climáticas, todos os olhos estão voltados para o Brasil, que tem um modelo de biocombustíveis que pode ser seguido em outros países", comenta Tomohiko Taniguchi, subsecretário de imprensa do Ministério das Relações Exteriores do Japão.

Para Taniguchi, "o presidente Lula está em uma boa posição para mostrar ao mundo como resolver essa equação, produzindo biocombustíveis eficientemente".

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Petrolíferas estão por trás de pressão contra etanol, diz Lula

16/05/2008 - 00h45


CLAUDIA JARDIM
da BBC Brasil, em Lima

Com um discurso em defesa do etanol, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que as indústrias petrolíferas estão por trás da crise que coloca os biocombustíveis como vilões da recente crise de inflação dos alimentos.

"Há uma disputa comercial no mundo. Obviamente as petroleiras estão por trás disso, obviamente que os países não querem mudar suas matrizes (tecnológicas)", afirmou Lula na noite desta quinta-feira em sua chegada a Lima, onde participará da 5ª Cúpula de Chefes de Estado da América Latina, Caribe e União Européia.

Lula disse que o debate em torno dos biocombustíveis "está só começando". "Nós precisamos estar preparados porque vem um debate longo e duradouro", ponderou.

O presidente brasileiro chega a Lima para protagonizar um dos pontos que prometem ser o alvo de polêmicas durante o encontro dos chefes de Estado.

De um lado, encontrará líderes latino-americanos preocupados com a produção de etanol à base de alimentos, leia-se Evo Morales (Bolívia), Alan Garcia (Peru) e os mandatários centro-americanos, e os europeus, que não estão convencidos que a revolução energética defendida por Lula seja o caminho para a produção da chamada "energia limpa".

"Contradição"

Para Lula a polêmica é "compreensível" e "contraditória".

"Como o tema é novo eu compreendo que as pessoas recusem. É muito difícil as pessoas aceitarem mudanças", disse.

"Mas acho muito engraçado porque as pessoas querem despoluir o planeta, desaquecer o planeta, assinar o protocolo de Kyoto e quando o Brasil oferece um combustível que não emite CO2 eles preferem utilizar um combustível que emite CO2, então há uma contradição", afirmou.

Lula criticou os ataques aos biocombustíveis como responsáveis pelo aumento dos preços agrícolas e responsabilizou o aumento dos preços do petróleo pela crise.

"As pessoas não querem discutir quanto tempo a Europa pagou para seus produtores não produzirem, as pessoas não querem discutir quanto implica um barril de petróleo a US$ 124 no preço do frete e dos fertilizantes", afirmou.

Para o presidente brasileiro, outro fator que implica a suposta escassez de alimentos é que "os pobres estão comendo mais".

"O povo pobre está comendo mais e eu quero que eles continuem comendo mais o que vai exigir que nós produzamos mais comida para eles comerem mais", disse Lula.

De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) o problema em torno da crise alimentar não está relacionado à escassez de comida e sim à falta de poder aquisitivo para comprar os alimentos.

Debate

Lula disse que proporá a seus colegas mandatários um amplo debate, "sem ideologia e emoção, mas com muita razão".

Questionado sobre as possíveis tensões que poderão haver entre os mandatários que participam da Cúpula, em alusão ao atrito entre Hugo Chávez e a chanceler alemã Angela Merkel e com o mandatário colombiano Álvaro Uribe, Lula saiu em defesa da democracia.

"É verdade que pode ter uma ou outra tensão, mas temos democracia na região como nunca tivemos em outro momento histórico. Hoje com exceção das Farc, não tem grupo armado, não tem guerrilha, não tem terrorismo e temos países construindo democracia, isso é o que interessa."

"Melhor que Evo"

Ao saber que o presidente da Bolívia Evo Morales havia participado de um jogo de futebol realizado em Lima com jogadores da década de 70, Lula brincou e disse que não participou da partida por acreditar que está em melhor forma física que seu colega boliviano.

"Não quero jogar com o Evo porque tenho a impressão que estou com melhor preparo físico que ele, não posso", brincou.

Morales chegou à capital peruana na tarde desta quinta-feira e sua primeira atividade "oficial" foi uma partida de futebol com jogadores peruanos da seleção de 70.

A partida foi organizada pela Cúpula dos Povos, encontro paralelo realizado por movimentos sociais que são contra as políticas de abertura econômica aplicadas pelos governos da América Latina e União Européia.

Com estádio lotado, Evo Morales jogou 30 minutos, marcou um gol de pênalti e voltou a criticar o veto da FIFA a jogos em locais de altitude maior.

"Isso é um apartheid, uma atitude que discrimina a Bolívia", afirmou.

A organização vetou a realização de partidas internacionais de futebol em estádios com altitude superior a 2.750 metros. A altitude média na Bolívia é de 3.600 a 3.800 metros e sob essas regras o país fica fora de disputas internacionais como o campeonato Libertadores da América.

Sobre o acordo de livre comércio que a Comunidade Andina de Nações (CAN) pretende estabelecer com a União Européia, Morales foi crítico e sugeriu como condição a livre circulação de pessoas entre os continentes.

"No meu país não tem sido uma solução política o livre comércio. Nos falam de livre comércio para produtos e serviços, mas não há livre circulação do ser humano. Porque não para o ser humano e simplesmente para o negócio", questionou Morales em conferência de imprensa na noite desta quinta-feira.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Biocivilização moderna de alta produtividade

A era dos biocombustíveis


30/04/2008

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Com a era dos combustíveis fósseis chegando ao fim, o nível atual de conhecimentos biológicos pode levar à construção de uma “biocivilização moderna de alta produtividade”, na qual o Brasil pode se tornar um ator da primeira importância, de acordo com o economista Ignacy Sachs, professor emérito da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris).

Mas, segundo ele, nada disso acontecerá sem determinadas políticas públicas que sejam capazes de construir sistemas integrados de produção de alimentos e energia com base na agricultura familiar.

Sachs apresentou uma palestra, na última segunda-feira (28/4), na segunda sessão do ciclo Impactos socioambientais dos biocombustíveis, realizado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP).

O professor, naturalizado francês, nasceu na Polônia e se formou em economia no Rio de Janeiro, onde sua família se refugiou durante a Segunda Guerra Mundial. O evento foi promovido pelo Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) e pelo Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos (Nereus), ambos da USP.

De acordo com Sachs, o debate sobre os biocombustíveis se insere numa discussão mais ampla a respeito daquilo que ele define como “a biocivilização moderna”.

“A biomassa pode ser alimento, ração animal, adubo verde e material de construção, além de ser matéria-prima para fármacos, cosméticos e para a química verde, que produzirá um leque cada vez maior de produtos. O conceito de biorrefinaria irá se firmar à imagem do que representou a refinaria de petróleo”, disse Sachs.

Sachs defende a produção de biocombustíveis privilegiando o uso de áreas desmatadas e, no caso brasileiro, principalmente das pastagens degradadas. “Temos que parar de raciocinar por justaposição de cadeias de produção, imaginando separação total de áreas para etanol, biodesel, grãos e gado. Temos que pensar mais seriamente em sistemas integrados de produção de alimentos e energia”, afirmou.

De acordo com Sachs, no entanto, para que essa biocivilização seja construída, as políticas públicas precisarão ser reorientadas de uma forma que permita solucionar, ao mesmo tempo, os problemas sociais e ambientais.

“O desafio que se coloca é atacar simultaneamente o problema ambiental e o problema do déficit crônico de oportunidades de trabalho decente e as desigualdades sociais. Se não partirmos para um ciclo de desenvolvimento com base na agricultura familiar, o que teremos não será essa biocivilização, mas uma produção de agroenergia amplamente mecanizada e favelas apinhadas de ex-agricultores”, declarou.


Políticas públicas necessárias

As políticas públicas necessárias, segundo Sachs, incluem cinco instrumentos principais: a implantação de um zoneamento ecológico-econômico, as certificações sociais e ambientais, a intensa pesquisa científica, a discriminação positiva do agricultor familiar e, por último, a reorganização dos mercados internacionais.

“A questão do zoneamento ecológico-econômico, necessário nas diferentes áreas de produção do país, liga-se ao reordenamento da estrutura fundiária e ao combate à informalidade e à ilegalidade que predominam”, afirmou.

Sachs observa que a certificação socioambiental, que, segundo ele deve, ser exigida também para o mercado interno, tem um obstáculo nos custos, já que os pequenos produtores não podem arcar com esses mecanismos. “Teremos que discutir até que ponto o Estado poderá co-financiar esse produtor”, disse.

A pesquisa científica, segundo o economista, deve se concentrar numa questão crucial: até onde se pode avançar no aproveitamento da energia solar pela fotossíntese. “É fundamental que o Brasil tenha uma posição bem documentada sobre seu potencial fotossintético. É preciso também investigar de forma mais sistemática os potenciais da biodiversidade e estudar sistemas integrados de produção alimentar e energética adaptados aos diferentes biomas”, disse.

A política de discriminação positiva do agricultor familiar, segundo Sachs, consiste num feixe de políticas públicas que abrangem desde educação e assistência técnica permanente, até linhas de crédito específicas e acesso aos mercados. “Seria preciso também desenvolver de uma vez por todas a idéia de reorganizar os mercados internacionais conectando as produções dos países em desenvolvimento”, afirmou.

Para o economista, a produção de biocombustíveis não terá impacto no acesso aos alimentos. “Não discuto o fato de que, com o encarecimento dos alimentos, a situação dos mais pobres vai ficar mais difícil. Mas é risível atribuir o problema da fome à insuficiência de oferta. Sabemos que o problema não é esse e sim a falta de poder aquisitivo. Os biocombustíveis não são o vilão. Ao contrário, poderiam ser um instrumento essencial para tirar os países da insegurança alimentar e energética”, disse.

Não se pode, no entanto, pensar que o problema da energia enfrentado pelo planeta possa ser resolvido com a simples substituição de combustíveis, segundo Sachs. “Temos que colocar em primeiro plano o tema da mudança de paradigma energético: outro perfil de demanda energética, que nos remeterá a um debate complexo e decisivo sobre estilos de vida e de desenvolvimento”, afirmou.